Quem sou eu? Você se pergunta, e eu lhe respondo: acima de tudo, sou uma guerrilheira buscando paz.
Sou uma narcótica-abstêmia ninfomaníaca-celibatária maníaco-depressiva niilista-estoica retrô-vanguardista, com predicados que se anulam e dão uma espécie de aniquilação subjetiva para toda a gama de afetos que insistem em habitar uma superfície primitiva e atormentada do meu ser. Devo ressaltar que essa última parte é importante, pois toda a minha odisseia existencial gira em torno de instintos pueris que me aproximam dos animais. Sou, nada mais nada menos, do que um corpo perseguido por impulsos irracionais praticantes de uma violência fleumática. Paz terrível. Se escrevo isso hoje é quase como um testemunho daqueles evangélicos que buscam arrebatamento. Com a diferença, é claro, de que meu púlpito acaba remetendo a uma espécie de hedonismo contrário às virtudes dos que ascenderão ao reino dos céus. Eu, minha algoz e minha salvação, revoguei o contrato social e elevei meu egoísmo à última potência, fazendo uso de homens à bel-prazer e destilando misandria aonde passo por aí.
Sou o acúmulo de todas as insígnias do feminino, fundidas em um psiquismo fudido e fragmentado. O refluxo simbólico de Eva com Maria Madalena, Antígona, Madonna, Spice Girls, Pandora, Rita Lee, Rita Cadillac, Pomba Gira, Ive Brussel, Beatriz, Lilith, Kate Bush, Simone de Beauvoir, Salomé, Monalisa. Um simulacro do longínquo sagrado feminino com o profano de ser uma Mulher.
Tenho milhagem em todas as sarjetas, motéis baratos, hotéis cinco estrelas e rooftops à beira-mar. Me formei em Ciências Sensuais pela FUDERJ e por ser tão filha da puta pari a mim mesma, fertilizada pelo caos. Documento o que vivo como uma espécie de registro histórico, experimentação masoquista que busca simultaneamente o êxtase e a desintegração. Sou um remendo apocalíptico de corpo mal amalgamado com torpes cicatrizes que construíram meu feminino. Imoralidade etérea, timidez pornográfica; performando uma lucidez translúcida, não fosse a mácula da minha loucura. Esquizofêmea costurada por Artaud, farrapo de todas essas coisas. Feita onde não havia juízo em Deus. Um desejo abjeto, um dejeto absurdo. Porra divina. E que sempre acaba nua, em uma esquina qualquer.
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