Fúria fleumática

Saio na rua portando um fuzil carregado de ternura. Estou em guerra há muito tempo, desde que fui contaminada com a empatia. É terminal, eles disseram, e eu chorei ao receber a notícia, como se já não bastasse o fato de ter todas as dores do mundo. Assim que soube, precisei abandonar os ímpetos ególatras e arrancar minha perversidade. Expurguei meu veneno e comecei uma purificação tóxica, livrando-me das minhas inclinações à crueldade. Era isso ou o vírus faria-o por si só, disse o médico, mas com o adendo de infectar minha subjetividade com as mazelas de um mindset de gratidão. 

Desde o diagnóstico, esqueci o sabor de ser um sujeito torpe. Minha austeridade virou compassiva, minha fúria fleumática e eu repulsivamente humanista. Quando acordo, desarmo minha mesquinhez e muno minha generosidade. Sou condenada a retribuir desonestidade com gentileza — uma commodity que está em baixa no mercado egóico-capital. Sentença sublime, paz terrível. Sou uma mártir da bondade. Quando olho no espelho, vejo um mero invólucro obsoleto cingido por um verniz de civilidade patológica. E todos os dias saio na rua portando um fuzil carregado de ternura.

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