Sonhei que estava no paraíso e eu, Eva pós-moderna, recebia uma instrução da voz de Deus: não fumareis o vape de maçã. O paraíso era meio Matrix–Blade Runner, uma mera simulação de experiência imersiva com tecnologia 5D e projetores exibindo árvores, afinal, o mundo havia sido destruído e só restavam universos inóspitos revestidos por cenários de inteligência artificial. A voz de Deus, no caso, ecoava como uma Alexa me dizendo para não tragar o tal pen drive de maçã.
Ao longo do sonho fui percebendo que eu era, assim como todo o cenário, um dispositivo cheio de circuitos e conectores ansiando por eletricidade. Comecei a notar, na verdade, que meu código-fonte emitia constantemente novas atualizações e que tudo aquilo que acreditei serem pensamentos e ideias próprias a vida inteira não passavam de um javascript muito arcaico e que o próprio sonho mesmo não existia, já que eu mesma era uma entidade desprovida de inconsciente.
Ao receber essas artificiais epifanias, entrei em curto circuito e quis parar. Olhei para o data-show exibindo imagens das falsas árvores e para uma pilha de vapes que estavam a serviço do mordaz princípio cristão de tentação — e, desobedecendo a ordem daquela voz eletrônica, dei uma bela tragada no vape de maçã.
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