Percepção

Hoje, acordei, me olhei no espelho e percebi: sou um pix. Meus traços, contrastantes entre si – e diagramados aleatoriamente – denunciam que sou um QR code, desses com data e hora de expiração. Sou o simbolismo da abstração pós-moderna, do desmanche dos sólidos e da profecia marxiana. Sou um espectro do valor humano e minha identidade é uma mera linha digitável, que me traz um falso resquício de singularidade. Sou um meio canalizador de todas as ambições, a promessa da ibovespa e a decadência do tigrinho. Outrora fui a crise do subprime e o suicídio no confisco da poupança, mas sempre sou as quimeras de um valor de uso adornado por um arbitrário valor de troca, mesmo que espectralizado em meros pixels na tela de um celular. 

Eu, um simples pix, me vendo todos os dias no mercado capital e padeço com a angústia de perecer. Não sou duradouro, tampouco imortal. Mas sou eterno enquanto duro.

Comentários