Diáfana dance floor

Coloco um canivete na calcinha e me lanço kamikaze. A cidade conduz uma eletricidade erótica e eu, peregrina profana, vou a qualquer Meca ao contrário. Pode ser nos arcos da Lapa, na Praca XV, num beco na Cinelândia ou nos fundos no Circo Voador. Sagradas sarjetas, encruzilhadas espectrais: meu corpo busca e eu obedeço. Insaciável até encontrar a diáfana dance floor.
É tudo tão hipnótico. Gravo um filme em meu olhar. Feixes de luzes em retas Mondrian atravessam o que sou em frenética geometria. Minhas memórias mundanas desaparecem e eu, translúcida, dissolvo minha lucidez ao perceber: é distópica a dance floor. Fliperamas narcóticos, ciborgues cianos. Putarias purpurinadas, strip-teases furtacor. Campos eletromagnéticos e eu na fresta do tempo. A sagrada sarjeta é e sempre será distópica. Penso: queria ser etérea e efêmera como uma dance floorEvito a dor mas sou e sempre serei real. Entorpecida efêmera fêmea. 
Peregrino nômade como quem escapa do espaço, mas a matéria nunca foge e as luzes me atravessam. É diáfana a dance floor. Uma música antiga me leva ao futuro; danço dilacerada distopias jazz. Maquiagem borrada e fragmentos cintilantes. Meu coração bate em uma frágil nudez e hemorrágica solidão. 
Naufrago no nada. É tudo tão hipnótico. 
No instante: todo DJ é artesão do futuro. Então eu danço e choro. E choro e danço. Entre feixes e raios UV. A aurora ameaça aparecer, holográfico crepúsculo. Vou até a rua e um táxi lunar me mostra: o céu é uma tela riscada por mísseis.

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