minha terra tem milícia
onde canta a metralhadora
a luz que aqui traceja
não traceja como lá
Rio de Janeiro
Rio de Vinícius, Rio de Tom
eu não gosto de Ipanema
eu não gosto do Leblon
a cidade é um circuito com cicuta
correndo pelas minhas veias
as ruas me atravessam como
lâminas luminescentes
sob eclipses de edificios
sou flanêur de fluxo sanguíneo obliterado
perdidamente pervertida entre homens
na Central do Brasil
a metrópole megalomaníaca
me devora
caminho em um mundo pós-bossa pós-fossa
num projeto falido de matrix tropical
e blade runner camelôs
sou um bug no cogito
paranoide androide
sob a radiação ultraviolenta
do simulacro submundo
não me venha com aquele abraço
nem com as águas de março
entre mares e fuzis
eu vislumbro o colapso
me perco em imensidões incandescentes
me encontro em encruzilhadas estilhaçadas
em meio ao frenesi cotidiano
o caleidoscópio urbano
embaralha minhas pupilas
eu vejo tudo
eu vivo tudo
sou hostess desse umbral
cartografo feito kamikaze
cada círculo
dessa profana tragédia
Dante de buceta
narcoticamente nua
me lanço entre o céu e o sexo
de noites neon
vou para qualquer esquina
da Lapa lisérgica
entorpecida por éter erótico
desamparada na degradação
minha fúria fullgás
reluz em tristes trópicos paraísos
meus ávidos átomos
se esvaem na multidão
fragmento humano
do epicentro civilizatório
atravesso a cidade
como sísifo na supervia
entre escombros elétricos
e ruínas cinematográficas
os fios caídos dos postes
me dizem que cheguei à zona norte
meu coração bate descompassado
e sou apenas uma mulher que volta para casa
sob o luar do gatonet
isso aí é coisa muito séria 👏
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