Sísifo de cropped


Carpe diem, seize the day. Repito isso mentalmente para mim mesma enquanto pego o último metrô da noite e reparo minha maquiagem borrada e cropped preto que não me deixa tão gostosa quanto eu gostaria de estar. Veja bem, eu só dormi por 3 horas essa noite e portanto tenho licença estética para ficar feia. Sou portadora de um estoicismo violento; todo dia é o que tem que ser. Nem Epicuro cultivaria essa internalidade de titânio na circunstância em que estou. Mas enfim, como eu estava dizendo essa noite dormi por apenas 3 horas. 

De manhã cedo quando acordei em casa me arrumei para estudar, saí da Penha e peguei o 350 Castelo. Passei pela faixa de gaza de Manguinhos flanando por todo tipo de barbárie e cenários dantescos que só as margens da supervia podem nos proporcionar. Após o primeiro círculo do inferno da profana tragédia, tive um mero dia de Sísifo no qual estudei, trabalhei e aturei toda sorte de gente chata – e pior ainda, homens – até ser liberada às 22:30 do trabalho. Saí para tomar umas rápidas cervejas (necessidade basal para amortecer todo tranco existencial) e tive que dar uma corrida da Lapa até a Cinelândia antes da estação fechar. Como de costume, o itinerário da volta foi por meio do metrô linha 2 Pavuna, descendo em Irajá.

Esta viagem a Hades, que conduz os passageiros ao submundo do Rio de Janeiro, comumente suscita um encontro subjetivo com alguma coisa exaurida e despedaçada em mim. O que me trouxe, desta vez especificamente ao olhar no vidro do vagão, a constatação de que não estou mais tão gostosa quanto já estive e que as camadas sobrepostas de delineado ao longo do dia agravam ainda mais meu cansaço, mesmo que eu tente consertá-las com equivalentes camadas de corretivo craquelado. Neste mero momento de distração, em algum limbo existencial entre as infinitas estações Triagem e Maria da Graça, tive uma percepção aguda do meu próprio declínio. Tudo o que tenho para oferecer atualmente é uma maquiagem borrada, um cabelo com pontas duplas e um carisma artificialmente etílico: eis a presença decadente de uma Sísifo de cropped. Não é muito bom pensar muito nisso, se não eu choro. Então presto atenção em como a paisagem parece menos detestável com as luzes da noite e logo sou novamente Epicuro. One must imagine sisyphus happy. Triagem até que é bonita quando estou sem lente e embriagada. Mas bom, como eu estava dizendo, geralmente pego a última combinação de metrô com ônibus da noite, o que me faz estabelecer certa cumplicidade com todos os outros fudidos que moram na fudidolândia assim como eu. Quando finalmente chego na estação, os que trabalham lá a noite me conhecem, assim como eu os conheço. Às vezes nos cumprimentamos e às vezes é apenas um olhar distante. Acredito que tenha alguma relação com nosso estado em termos de desânimo operacional-existencial. Eles me deixam ficar um pouco além da conta na estação fechada enquanto espero um dos ônibus para Penha Circular passar. Nesse meio tempo, o espaço entre o trem e plataforma parece sempre mais atraente do que o normal. Veja bem, eu só dormi por 3 horas na última noite e não tenho previsão alguma de quando essa rotina vai mudar. Fato é que eu jamais faria isso. Pelo menos não ali. Irajá é uma estação acolhedora comparada às outras da linha 2 ou no mínimo mais acolhedora do que Vicente de Carvalho, em que já presenciei alguns tiroteios. Evidentemente, também mais acolhedora do que Acari/Fazenda Botafogo e Engenheiro Rubens Paiva, que mais parecem Bagdá bombardeada. Sendo assim, costumo ficar lá dentro enquanto espero a Mercedes-Benz de 30 lugares que vai me deixar em casa, mas se o tempo passa e vejo que não tem mais ônibus acabo pegando um mototáxi. 

Existe um limiar entre a noite-suburbana-de-perigo-habitual (assalto com moto, bike, roubo de celular) e a noite-suburbana-de-perigo-walking-dead (os mesmos assaltos porém com acréscimo de eventuais facadas, tiros, alguns estupros e muitas outras selvagerias que podem acontecer). Esse limiar é algo facilmente reconhecível por nós, criaturas da noite. É como um ruído de paranormalidade percorrendo o silêncio da ausência de pessoas e carros. Quando isso acontece, sei que já perdi o último ônibus e me rendo aos meninos do mototáxi. Torço pro cara ser vida loka e fazer o percurso dando grau, com emoção. Se for bonitinho melhor ainda, seguro firme na cintura dele. Mas se for feio seguro no banco mesmo. 

Enfim, após ultrapassar as barreiras da minha odisseia joyceana para conseguir voltar, finalmente chego no meu bunker. Não reclamo. Meu lar é a rua e estranho seria se eu encontrasse conforto em casa. Agradeço a Exu, Caronte, James Joyce e Dante por me guiarem em mais uma noite que não fui morta – ou pior, estuprada. Tiro o cropped, tomo um banho, faço meu skincare e termino esse texto. E neste momento, a pedra atinge o topo e começa a cair. Então decido dormir, porque em breve Sísifo fêmea começa novamente a subir.


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