Miragem I

A primeira vez que te vi, estávamos nos escombros. Eu caminhava em meio aos destroços, névoas de gente e retalhos de corpos por toda parte. O arrebatamento veio, outros foram e eu permaneci ali como muitos. Alguns penitentes, alguns déspotas. Alguns vivos, alguns mortos. Mundo em ruínas, transformado em sombra estéril de tudo aquilo que já existiu. Terreno baldio esotérico, deserto insólito fertilizado por todas as sobras humanas. No início chorei bilhões de vezes nesse espaço sem tempo, predicado da fúria divina. E eu, com uma fome voraz, desejava devorar todos os corpos amontoados, tudo que ainda existia e fora deixado para trás. Mas era um desejo natimorto, manifesto em alguém que vaga pelo limbo como quem pratica sacrifício, mortificada voluntariamente e cingida por um verniz humanista que insistia em permanecer em mim. Mulher abstêmia dos prazeres carnais atravessando um vale de cilício. 

A primeira vez que te vi, estávamos nos escombros. Eu tinha uma fome voraz.
Olhei de relance um fulgor rubro que insistiu em reluzir no meio de estilhaços monocromáticos. Era você devorando um corpo. No seu olhar, a certeza predatória de quem não chora carregando uma culpa tola como a que carrego. Me aproximei e perguntei como você conseguia e você me disse que canibalismo é a metáfora última do amor e preservação da vida. Desde então, nunca mais senti culpa. E eu olhava você, devorando corpos.

À medida em que tudo que é sem termo é sem tempo, adestrei alguma coisa inominável que existia em mim, porém muito antiga e adormecida. Eu havia sofrido um traumatismo profano e virado uma testemunha letárgica da catástrofe, um post scriptum do apocalipse. Passei por uma reabilitação instintiva e assim como quem aprende a andar, aprendi a comer. Assim como quem aprende a correr, aprendi a caçar. Desse jeito, ao passar dos dias me juntei a você e nos mantivemos vivos por um canibalismo criado à imagem e semelhança da tragédia, porque descobri que o verdadeiro arrebatamento era estarmos ali, no resto dos céus. O tempo passou e eu, que aprendi a comer, passei a devorar tudo o que via pela frente, tentando preencher algum vazio qualquer dos tempos de abstinência. Eu olhava para cada corpo como se fossem Brás Cubas que me dedicassem suas carnes para roer. Não havia vilipêndio, mas consagração. E tal como uma eucaristia estes eram o sangue e o corpo entregues por vós para a comunhão. No fim, a humanidade virava um ciclo de ouroboros que no futuro eu colaboraria também. Nesse momento, eu me sentia infinita. 

Quando percebi isso, o tempo finalmente passou. Indubitavelmente os deuses retém para si toda aproximação da verdade universal. Egoísmo sublime, misericórdia despótica. Nunca podemos saber demais. Cronos devora todos que algum dia possam destroná-lo e eu havia devorado todos a minha volta, então agora era minha vez de ser devorada. A serpente que morde a própria cauda nunca falha. E quando reparo nos estilhaços, vejo que sou a própria serpente que morde a si mesma. Pois tenho uma fome voraz.

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